Pra quem quiser me visitar....
  • Aïoli no Bistrot du Paradou
  • “Redefinindo Sustentabilidade”: Parabere Forum chega à terceira edição debatendo a igualdade de gênero na gastronomia
  • Lenha no fogão: comida e memória no sul de Minas Gerais
  • A Casa do Porco Bar: Jefferson Rueda finalmente em casa
  • Restaurante Roberta Sudbrack fecha as portas no Rio de Janeiro: o fim pode ser uma ponte?
  • Padaria da Esquina, a nova casa de Vitor Sobral em São Paulo: minhas impressões
  • Provence: o mercado de Saint-Rémy
  • A hora do chá no Le Meurice, em Paris
  • Berlim, de bocado em bocado
Terça, 28 Novembro 2017

Privilégio no menu do dia

Fazia meia hora que eu esperava por uma mesa quando um senhor se apresentou à recepcionista como amigo de X, que já se encontrava no salão. Ao que a moça retrucou: “qual X, da equipe do 50 Best?” (referindo-se ao ranking de restaurantes da revista inglesa Restaurant) “Isso”, respondeu ele. Imediatamente o fizeram entrar.

Eu ainda esperaria mais uma hora até ser acomodada. Por acaso, a mesa que me foi então designada era bastante próxima à de X e seus quatro acompanhantes, o que me permitiu passar a noite observando o tratamento peculiar que a casa lhes destinava. Excessiva atenção por parte dos funcionários, mesuras sem fim por parte do chef, que chegou a improvisar um prato fora do cardápio pra surpreender o grupo.

A reação de muitos dos comensais em mesas vizinhas foi, digamos, curiosa: em vez de refletir sobre eventual equívoco por parte do chef em assumidamente privilegiar o grupo, alguns clientes se acotovelavam em frente à cozinha na tentativa de fotografar o prato especial que não poderiam comer, enquanto outros apelavam: “não dá pra mandar um igual pra nós?” Os garçons respondiam sem qualquer constrangimento: “esse prato não está no cardápio, foi feito especialmente praquela mesa, pois eles são do Prêmio 50 Best”.

Não houve como não me lembrar da emblemática crítica publicada no New York Times em 2013, na ocasião em que o restaurante Daniel perdeu uma de suas quatro estrelas. Intitulada Serving the stuff of privilege, a resenha foi assinada por Pete Wells, que, com extrema elegância, narrou situação parecida com a que acabo de descrever.

Talvez a única falha de Pete Wells tenha sido a de punir Daniel Boulud por conduta igualmente adotada por quase todos os seus pares. Em boa parte do mundo, é prática tão comum quanto lamentável o tratamento privilegiado dado a formadores de opinião. Poucos são os chefs de cozinha que se negam a aderir. Raros são os jornalistas que questionam este padrão.

No Brasil, não é diferente. E já faz tempo que a rotina deixou de se limitar aos restaurantes mais caros, chegando até aos botequins. Não são muitas as exceções. E não é por outro motivo que deixo de citar aqui o nome do local onde testemunhei a cena que agora relato. Me parece que seria injusto crucificar um único chef por comportamento reproduzido pela maioria de seus colegas de profissão - ainda que em geral o façam com um pouco mais de discrição.

Me pergunto se aqueles que promovem e aceitam esse tipo de barganha se dão conta de que tal praxe é irmã da cultura da troca de favores que domina as altas cúpulas do Estado brasileiro – e contra a  qual muitas destas mesmas pessoas eventualmente bradam. Podemos até eleger outra palavra pra definir a situação relatada neste post, mas a lógica me soa muito parecida. E é conduzida com assustadora naturalidade no meio da gastronomia, a ponto de o público lidar com isso sem indignação. Via de regra, só se incomoda quem fica fora da festa.

Tags:
Comentários:
em 28-11-2017
por: Marcelo
Bravo Cons, apoiado!
em 28-11-2017
por: Juliana
Concordo plenamente e, quando assisto esse tipo de episódio, o estabelecimento me perde para sempre....
Certa vez, presenciei esse tipo de conduta em um bar da moda em Ipanema, do tipo que o cardápio segue os novos padrões de dieta, orgânico, vegano, sem glúten, etc. O chef do bar passou boa parte do tempo fazendo misuras para os comensais de uma determinada mesa, por estes serem “ especialistas” no tipo da culinária do bar e desenvolvia petiscos e acepipes exclusivos para a mesa. Eu me recuso a frequentar locais do tipo, quando descubro a prática. Chef que é chef se garante na sua cozinha do dia-a-dia e faz igual para todos que recebe!
em 28-11-2017
por: Zenon Marques Tenorio
É como se fosse "sabe com quem está falando?"É profundamente lamentável tal cinduta, mesmo que ela seja frequente. Penso como a Juliana, estabelecimento que tem esse proceder me perde para sempre!
em 28-11-2017
por: Adriana Marques
De forma parecida, confesso que pego "ranço" dos restaurantes que lançam menu chamando todos os "digital influencers" do Instagram, inundando meu feed de fotos diferentes dos mesmos pratos/vinhos que se eu quiser provar terei que pagar (e caro). E me enlouquece quem bate palmas para determinados restaurantes que cobram mais de R$60 por pratos de massa ao pomodoro... Sei que sou minoria (e bem chata), mas tb parei de frequentar duas redes de restaurantes cujos donos estão envolvidos até o pescoço com a Lava-jato...
Deixe seu comentário:
© 2012 Pra quem quiser me visitar - Todos os direitos reservados - Design de Branca Escobar

Envie para um amigo:

*
*

Fale comigo:

*

Assinar Newsletter:

Remover email: