Há alguns anos frequento o Bazzar. Admiro a proprietária, a restauratrice Cristiana Beltrão, que, inteligente, viajada e sempre em dia com o que acontece nas mesas do mundo, conferiu à casa muito da sua personalidade. O ambiente do restaurante, de bom gosto indiscutível, se é cosmopolita, tem ao mesmo tempo DNA carioca. O cardápio, se não apresenta pratos inspirados ou propriamente originais, tem o mérito de reuni-los num balaio onde confluem várias vertentes e, ainda assim, contextualizá-los na proposta de privilegiar ingredientes e produtos brasileiros – sempre que possível, locais.
A questão é que embora sempre tenha tido ali refeições agradáveis, nunca chegaram a empolgar. Em boa parte das visitas, saí com a impressão de que o caráter que a dona conferiu à casa não encontrava justa resposta na cozinha. Jamais comi mal, mas, muitas vezes, os pratos escolhidos me pareceram melhores no cardápio do que à mesa. Pois a recente reforma que deu ao Bazzar um belo balcão, de alguma forma, mudou minha relação com o restaurante.
Batizado de Bubble Bar, o novo espaço oferece boa gama de champagnes e outros espumantes, além de uma seleção de jerez e cervejas artesanais, servidos em taça – prática rara nestas paragens, digna de aplausos mesmo – e conta com um cardápio não só mais enxuto, mas mais interessante e atual. Enxergo ali um bem-vindo sopro de renovação.
Apesar de confortável e elegante, o Bubble Bar não foge à característica dos balcões, que vejo como uma espécie de arquitetura da despretensão. Afinal, não comportam, nem fisicamente, metade dos rituais que tantas vezes engessam uma refeição e roubam-lhe parte do prazer. Portanto, além de nele descobrir o melhor ângulo da casa, me senti mais à vontade pra adotar uma prática que desconfiava fazer todo sentido ali: dispensada das amarras de uma refeição mais formal, pude me dedicar inteiramente às entradas, que sempre me pareceram melhores que os pratos principais e as sobremesas.
Foi o que fiz nas últimas três visitas. Acomodada no balcão, me concentrei nos pequenos bocados e porções pra compartilhar na seleção idealizada pro novo espaço, recorrendo eventualmente a algumas predileções do cardápio do restaurante (pelo que entendi, os dois cardápios se comunicam em todo o salão).
Tenho revisitado velhos favoritos, como o escabeche de mexilhões com laranja ou o indispensável caldinho de feijoada, coroado com farofa de focaccia e crocante de couve.
E venho encontrando boas novidades. Como a delicadeza do feijão manteiga de Santarém com tomates e vinagrete de caju.
O sanduíche de pulled pork, que, pra mim, seria perfeito se o chutney de abacaxi fosse um pouquinho menos doce – e se dispensasse a companhia das batatas fritas industrializadas, que acho que não encontram lugar dentro da filosofia e do conceito da casa.
A terrine de queijo de cabra com três pestos – beterraba, azeitona e pistache com manjericão.
As gostosas sardinhas com alho e mini legumes confits.
Desde então, tenho saído mais feliz do que costumava sair dali. Descobri que uma simples mudança de ângulo pode transformar nossa relação com um restaurante. Como muito do que se passa na vida, é tudo uma questão de perspectiva. E talvez seja até mais que isso. Desconfio que Cristiana Beltrão trouxe à tona, na nova faceta do Bazzar, algo melhor que o próprio Bazzar.
Bazzar Bubble Bar – Rua Barão da Torre 538 – Ipanema